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EUGÉNIO
DE ANDRADE
Eugénio de
Andrade é o pseudônimo de José Fontinhas, nascido em Póvoa de
Atalaia, Portugal, a 19 de Janeiro de 1923.
Em 2001 foi
agraciado com o Prêmio Camões, considerada a mais importante premiação
literária da língua portuguêsa, pelo conjunto de sua
obra.
Assim,
merecidamente, passou a fazer parte de um grupo seleto, junto a
outros grandes nomes de nossa literatura já premiados, como José Saramago
e Sophia de Mello Breyner (portugueses), Autran Dourado, João Cabral de
Melo Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Antônio Cândido
(brasileiros).
O SAL DA LÍNGUA Escuta,
escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém - mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar. São três, quatro palavras, pouco mais. Palavras que te quero confiar, para que não se extinga o seu lume, o seu lume breve. Palavras que muito amei, que talvez ame ainda. Elas são a casa, o sal da língua.
AS
AMORAS
O meu país
sabe as amoras bravas
no verão. Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país, mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele, mas quando um amigo me traz amoras bravas os seus muros parecem-me brancos, reparo que também no meu país o céu é azul. ("O Outro Nome da Terra")
URGENTEMENTE
É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente
destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente
inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio
nos ombros e a luz
impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer. AS
PALAVRAS São como cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem. Desamparadas, inocentes, leves. Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda. Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras? EROS
ROTINA
Passamos pelas
coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos. MADRIGAL
Tu já tinhas um
nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor. Nos meus versos chamar-te-ei amor. II
Cantas. E fica
a vida suspensa.
É como se um rio cantasse: em redor ´tudo teu; mas quando cessa o teu canto o silêncio é todo meu. Deixa a mão...
Deixa a
mão
caminhar
perder o alento até onde se não respira. Deixa a
mão
errar sobre a cintura apenas conivente com nácar da língua. Só um grito
desde o chão
pode fulminá-la. A morte
não é um segredo não é em nós um jardim de areia. De noite
no silêncio baço dos espelhos um homem pode trazer a morte pela mão. Vou ensinar-te
como se reconhece
repara é ainda um rapaz não acaba de crescer nos ombros a luz desatada a fulva lucidez dos flancos. A boca sobre a boca nevava.
LETTERA AMOROSA Respiro o teu
corpo:
sabe a lua-de-água ao amanhecer, sabe a cal molhada, sabe a luz mordida, sabe a brisa nua, ao sangue dos rios, sabe a rosa louca, ao cair da noite sabe a pedra amarga, sabe à minha boca.
ESCREVO
Escrevo
já com
a noite
AS PALAVRAS QUE TE ENVIO SÃO
INTERDITAS
As palavras que
te envio são interditas Dói-me esta
água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura, estas mãos nocturnas onde aperto os meus dias quebrados na cintura. E a noite
cresce apaixonadamente.
POEMA
XVIII
Impetuoso, o
teu corpo é como um rio
onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem
dos gestos que tracei, ADEUS Já gastámos
as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos
nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. À s vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no
tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos
as palavras.
Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada
para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.
FRENTE A FRENTE
Nada podeis
contra o amor,
Contra a cor da folhagem, contra a carícia da espuma, contra a luz, nada podeis. Podeis dar-nos
a morte,
a mais vil, isso podeis - e é tão pouco! SURDO, SUBTERRÂNEO RIO Surdo,
subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo; amor sem margens onde a lua rompe e nimba de luar o próprio lodo. Correr do tempo ou só rumor do frio onde o amor se perde
e a razão de amar CONTRAPONTO
Oiço-a ainda longe, a neve. Vai chegar um dia com a luz de novembro, antes passará pelos teus lábios. E serás condescendente, a ponto de lhe indicares o caminho mais longo, o que leva ao bosque onde te peguei na mão sem coragem para a levar à boca. A neve tem esse lado acolhedor de farol no escuro. Antes de nos soterrar o coração. |
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