O "processo" contra os Templários
iniciou-se no pontificado de
Clemente V, mas na verdade, Filipe
IV já se ocupava em jogar uma
formidável "queda de braço" com a Igreja,
desde o pontificado anterior,
sob Bonifácio VIII.
Os antecedentes desta disputa, apesar de pertinentes, fogem aos
objetivos deste Site. Por isso remeto o leitor que se interesse em
conhecer um pouco mais à bibliografia
recomendada.
Ainda assim,
para facilitar a compreensão do contexto histórico,
optei por registrar aqui um famoso episódio, conhecido como
a
"Humilhação de Agnani", por ter sido este
um efetivo prenúncio
das reais intenções (sem trocadilho) de Filipe IV.
Já em
1300, o papa Bonifácio
VIII sentia-se cada vez mais poderoso.
Não só havia se livrado do antecessor, Celestino
V, prevalecendo sobre os
Colonnas, seus inimigos tradicionais,
como parecia também à beira de um triunfo no Oriente. Havia
uma Cruzada em marcha para recuperar Tortossa
e, para culminar,
Jerusalém estava em vias de ser devolvida à Igreja
pelos Mongóis.
Além disso, fosse por contas corretas ou equivocadas, a
Cristandade
comemorava também o milésimo tricentésimo
ano do nascimento de
Jesus de Nazaré, chamado o "Cristo".
Bonifácio
não deixou escapar tão
feliz oportunidade e proclamou um novo "Ano Jubileu", prometendo total indulgência
aos peregrinos que visitassem
a Basílica de São Pedro
e o
Latrão, após confessarem seus pecados.
O papa obteve um completo
sucesso de público e de crítica...
A multidão acorreu em massa, e cerca de 200.000 peregrinos
comprimiram-se tão densamente, que foi necessário
fazer uma brecha no
muro de Leão para que o Pontífice pudesse
passar.
Desde Urbano II não
se via tal coisa, e Bonifácio,
exultante, apareceu
diante dos peregrinos, sentado no trono de Constantino, portando
espada,
coroa e cetro, enquanto gritava para eles: "Eu
sou César".
O Reino de
França não engoliria esta inequívoca
demonstração de
poder sem alguma retaliação evidente. Assim, em 1301, foi preso
Bernardo de Saisset, bispo de Pamiers,
sob o pretexto de haver feito comentários públicos
pouco favoráveis a
Filipe.
Mediante "provas" obtidas sob tortura, o bispo foi acusado
de simonia,
heresia e traição. Este era o método...
O papa protestou,
indignado contra o que considerou uma "clamorosa infração
da jurisdição eclesiástica". Além
de imperdoável afronta à sua augusta
pessoa, claro...
Na bula "Ausculta fili",
de 1301, ele condena esta violação, ao
mesmo tempo que convoca
os bispos franceses para um Sínodo em Roma.
Trinta e nove deles ousaram comparecer, na verdade, um risco e tanto...
Porém, em 1302, ele publicou uma nova
bula, a famosa "Una sanctum", onde escreveu: "É completamente
necessário à Salvação,
que toda
criatura humana esteja sujeita ao Pontífice Romano".
Os papas eram mesmo engraçadíssimos...
Enfim, como Filipe
IV não
demonstrasse qualquer sinal de arrependimento
ou disposição de curvar-se ante a Igreja, Bonifácio
preparou uma nova
bula, desta vez de excomunhão, contra o rei de França.
Entretanto, não teve tempo de publicá-la, pois foi
detido por um golpe
audacioso: enquanto descansava em seu palácio em Agnani, guardado
apenas por um pequeno contingente de Templários e Hospitalários,
foi atacado e preso por uma força militar francesa, liderada
por
Nogaret,
ministro de Filipe, mas que incluía também partidários
de seus velhos
inimigos, os dois cardeais Colonna.
Bonifácio,
paramentado com todos os adereços pontifícios,
desafiou
seus captores gritando: "Eis aqui minha cabeça!" Nogaret
e seus cúmplices Colonnas recuaram, pois não
era sua
intenção matar o papa, mas sim leva-lo para a França,
onde seria
julgado pelo assassinato de seu antecessor, Celestino V, heresia
e...
Sodomia. Como
se pode observar, as acusações
eram sempre as mesmas...
Se o rapto fosse consumado, Bonifácio, sob tortura, certamente,
teria confessado tudo isso e mais alguma coisa...
Entretanto, tal não chegou a acontecer, e o papa foi salvo
pela
população de Anagni que, indignada com a afronta ao
Pontífice,
reuniu-se e expulsou franceses e Colonnas.
Bonifácio VIII regressou à Roma, mas alquebrado pela humilhação
e maus tratos sofridos, veio a falecer quatro semanas depois.
A fusão
entre as duas ordens, Templária
e Hospitalária,
sempre pareceu
ao rei Filipe uma perspectiva agradável, pois ele tencionava
fazer nomear um
seus filhos como Grão Mestres da ordem
resultante. Felipe
IV, le Bel, manipulava o papado a seu "bel" prazer.
O trocadilho saiu sem querer, mas, na verdade, tal manipulação
resultava tão bem sucedida por conta do terror
que ele inspirava
ao pulsilânime
Clemente V, com certeza ainda bem lembrado da"
Humilhação de Agnani", sofrida por seu antecessor.
Entretanto,
não era
apenas o temor que mantinha Clemente atrelado
a Filipe. O papado andava em descrédito desde a queda
de Acre, e urgia
organizar uma nova Cruzada para a reconquista.
Não andiantava sentir saudades de Ricardo,
Coração
de Leão, do pio e devoto rei Luis
IX de França, agora já canonizado como São
Luis, ou mesmo do
desdenhoso, cético,
mas mui competente, Frederico
de Hohenstaufen.
Todos eles já pertenciam à História, e Clemente
ansiava por um líder forte,
capaz de levar adiante a nova Cruzada.
No seu entender, o único soberano capaz desta proeza, seria
Filipe de França.
Jerusalém,
que no início
do domínio
mongol, ainda sob o pontificado
de Bonifácio VIII, estivera prestes a ser devolvida à Igreja,
tornara-se
agora "um retrato na parede", pois o Il-Khan mongol, Ghazan,
mudou de
idéia, decretando, em 1304, que a religião oficial
seria a muçulmana.
Filipe
aceitou a incumbência de Clemente, mas impôs
condições.
Por exemplo, exigiu que deveria haver uma reconciliação
do papado
com os Colonna, além de perdão para todos os envolvidos
no episódio
de Agnani, o que envolvia Nogaret, seu homem de confiança.
Exigiu ainda a denúncia formal (póstuma) contra BonifácioVIII,
além
da nomeação de novos cardeais reconhecidamente francófilos.
Não
admira que Dante Alighieri,
exilado sim, mas ainda florentino, deixasse bem clara sua indignação
contra um papado que se prostituia
a um rei francês sem qualquer escrúpulo.
Estas negociações,
entretanto, deram-se antes da eleição
de
Clemente, quando ele ainda era o Cardeal Beltrand de Goth...
Sua eleição como papa, possivelmente deveu-se ao apoio
do próprio Filipe.
O rei havia imposto ao cardeal ainda uma quarta condição,
mas esta
era "secreta", e seria comunicada a Bertrand de Goth
em momento oportuno.
Refería-se ele aos Templários, ou essa "quarta
condição" não passaria de lenda? Difícil
saber-se.
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