Apesar de sua vida encerrada
em Clairvaux, Bernardo sabia da fundação da Ordem dos Templários
também por intermédio do conde Hugo de Champagne, seu
amigo e benfeitor. Ao ouvir que o Conde de Champagne havia entrado
para a Ordem em Jerusalém,
Bernardo escreveu-lhe congratulando-o, mas, ao mesmo tempo, lamentando-se
de que ele não tivesse optado por tornar-se monge em Clairvaux.
Devido ao patrocínio anterior do Conde, Bernardo deve ter
tido certa dívida de gratidão para com esse grande
nobre, que havia renunciado ao mundo.
Um homem ainda mais estreitamente
relacionado com os templários, era o tio mais moço
de Bernardo, André de Montbard, meio-irmão de sua
mãe.
Ambos devem tê-lo mantido informado das necessidades do ultramar.
Em 1124, quando o abade cisterciense de Morimond propôs a fundação
de um mosteiro na Terra Santa, Bernardo rejeitou a idéia alegando
que “as necessidades lá são cavaleiros que combatam,
e não monges que cantem e se lamentem”.
Contudo, a Ordem dos Cavaleiros do Templo
bem poderia ter malogrado desde o início, se não tivesse recebido a aprovação
da Igreja no Concílio de Troyes, em seguida confirmada pelo
papa Honório II.
Essa aprovação deveu-se em
grande parte ao apoio de Bernardo de Clairvaux, o qual ele reforçou,
após seu retorno a Clairvaux, escrevendo o tratado De laude
novae militae (“Em louvor da nova ordem de cavalaria”).
Será que
isso foi suscitado por críticas à Ordem? Ao regressar
a Jerusalém, Hugo de Payns recebeu uma carta de Guigo, o quinto
prior da Grande Cartuxa. Ele era um monge respeitadíssimo
e evidentemente sentiu que era seu dever convencer os templários
de que deveriam ver sua vocação antes de tudo como
espiritual, e não como marcial.
“Na verdade, é inútil
para nós atacarmos os inimigos externos se não derrotarmos
primeiro os internos.”
O prior da Grande Cartuxa enviou cópias de sua carta por
dois mensageiros e pediu a Payens que assegurasse que ela fosse lida
para todos os membros de sua Ordem.
Decerto para mitigar quaisquer dúvidas no espírito
dos templários já existentes e de recrutas potenciais,
que Hugo insistiu com Bernardo para escrever o "De laude".
Bernardo
afirma na introdução que bastaram apenas três
pedidos para que ele pegasse na pena.
O tratado é dirigido
aos irmãos
e no início os adverte de que o Diabo tentará solapar
a resolução deles, impugnando seus motivos para matar
o inimigo e levar os espólios de guerra, tentando desviá-los
do ofício escolhido com a quimera de um bem maior.
Ele reconhecia
que eles eram uma inovação na vida da Igreja, “completamente
diferente da maneira habitual da cavalaria”, cujos motivos puros
transformavam o homicídio, o que era um mal, em malecídio (malecide
no original) ou seja, o “homicídio do mal”, o que
era bom...
Diga-se de passagem, um conceito mui perigoso...
Maquiavel também diria a mesma coisa com outras palavras...
Porém, não havia dúvida no espírito de
Bernardo de que a Terra Santa era o patrimônio de Cristo injustamente
confiscado pelos sarracenos - grande parte do “De laude” era preenchido
com uma descrição das cenas de sua vida e Paixão.
Portanto, era para o bem espiritual dos templários que eles
pisariam o mesmo solo que seu Salvador. Acima de tudo, para S. Bernardo, "deparar com a realidade material do Santo Sepulcro faz o cristão
recordar-se de que aqui ele também vencerá a morte".
E continua:
”Ide em frente em segurança, cavaleiros, e com alma intrépida
afugentai os inimigos da cruz de Cristo, certos de que nem a morte
nem a vida podem separar-vos do amor de Deus, que está em
Cristo Jesus, repetindo para vós mesmos a cada perigo: Quer
vivamos, quer morramos, nós somos do Senhor. Quão gloriosos
são os vencedores que regressam da batalha! Quão abençoados
são os mártires que morrem em combate! Regozijai-vos,
destemidos atletas, se viverdes e conquistardes no Senhor, mas exultai
e glorificai ainda mais se morrerdes e vos juntardes ao Senhor. A
vida de fato é fecunda e a vitória gloriosa, mas (...)
a morte é melhor do que qualquer dessas coisas. Pois se aqueles
que morrem no Senhor são abençoados, quão mais
abençoados são aqueles que morrem pelo Senhor? “
Sem
dúvida, os abençoados (de um lado e de outro)
contaram-se aos milhões... |