CECÍLIA
MEIRELES
OS
GATOS DA TINTURARIA
"Os gatos
brancos, descoloridos,
Passeiam pela tinturaria,
Miram polícromos vestidos.
Com soberana melancolia,
Brota nos seus olhos erguidos
O arco-íris, resumo do dia,
Ressuscitando dos seus olvidos,
Onde apagado cada um jazia,
Abstratos lumes sucumbidos.
No vasto chão
da tinturaria,
Xadrez sem fim, por onde os ruídos
Atropelam a geometria,
Os grandes gatos abrem compridos
Bocejos, na dispersão vazia
Da voz feita para gemidos.
E assim proclamam a monarquia
Da renúncia, e, tranqüilos vencidos,
Dormem seu tempo de agonia.
Olham ainda para os vestidos,
Mas baixam a pálpebra fria."

("Gato Azul",
do artista plastico Adelmir Martins")