As Cruzadas
foram guerras proclamadas pelo papa, em nome de Cristo, e
travadas como se fossem uma iniciativa do próprio Cristo para
a
recuperação da propriedade cristã ou em defesa
da Cristandade, contra
inimigos internos ou externos.
Os
movimentos das cruzadas, os quais, num certo sentido foram uma extensão
da guerra que estava sendo travada contra os muçulmanos
na Espanha e
na Sicília, encontraram respaldo nos escritos de Santo Agostinho,
bispo de
Hipona, que vivera setecentos anos antes...
Agostinho defendia o conceito da "violência divinamente
autorizada".
Séculos mais tarde, (séc XVI) Maquiavel afirmaria a
mesma coisa com
palavras diferentes, ao pontificar que o "fim justifica os meios".
Mas a este a Igreja Católica não canonizou...
Na altura,
contudo, o pontífice contou com a ajuda extra do fanatismo
sombrio de certo monge pregador, o terrível Pedro, o Eremita,
o qual arregimentou populações
inteiras da Europa, principalmente entre os
"simples", embora não fosse exatamente este tipo de ovelha
que o papa tinha em mente... Afinal, seu discurso, pelo menos no
início, visava mobilizar as ovelhas poderosas do seu rebanho. Na
verdade ele precisava (e muito) consolidar e demarcar o redil.
A Primeira
Cruzada foi pregada pelo papa Urbano II, no Concílio
de
Clermont, em 1095.
Sua justificativa era a recuperação da herança
de Cristo (Terra Santa
e arredores), e a proteção dos cristãos
contra o avanço
muçulmano. Esta dupla causa foi comum a todas as outras
expedições contra o Leste e, desde o princípio,
lhes deram o caráter de
peregrinações.
Foi um sucesso e tanto...
Os cruzados tomaram Antioquia, (1098) Jerusalém, (1099) e
estabeleceram o principado de Antioquia, o condado de Edessa
e Trípoli, e o Reino Latino de Jerusalém, os quais
sobreviveram
até 1291.
A esta seguiram-se
a Segunda Cruzada, (1145-48) e a Terceira, (1188-92) no decorrer
da qual, Chipre caiu sob domínio latino,
sendo
governada por europeus ocidentais até 1571.
A Quarta Cruzada
(1202- 04) desviou-se do seu curso, atacou e saqueou Constantinopla
(Bizâncio), estabelecendo domínio latino na
Grécia.
A Quinta Cruzada
(1217- 21) foi a primeira do rei Luis IX de França.
Contudo, houve também um grande número de empreendimentos
menores (1254 -91), e foram estes que se converteram na forma mais
popular de cruzada.
Houve cruzadas (ou planos para elas) nos séculos XIV e XV;
cruzadas no Mediterrâneo oriental no século XVI; e por
incrível
que possa parecer, a Ordem de São João (Hospitalários)
ainda
estava envolvida numa guerra contra os turcos no século XVIII...
Até o
século
XVI, as Cruzadas eram periodicamente pregadas
na Espanha, mas o combate aos adversários políticos
do papado
parece ter sido introduzido entre seus objetivos pelo
papa Inocêncio III, em 1135, quando concedeu indulgências
aos que
lutavam contra os Normandos e contra o antipapa, Anacleto.
Depois dele essa política foi usada descaradamente pelos outros
papas, nos séculos XIII e XIV, na Itália contra os
Hohenstaufen e
gibelinos em geral.
Muitas dessas iniciativas terminavam em tragédia e fracasso,
como a curiosa "Cruzada das Crianças", em 1212.
O mesmo Inocêncio III deflagrou a brutal cruzada contra os
Cátaros
do Languedoc.
Seguir-se-iam cruzadas contra os camponeses de
Staedinger, na Alemanha e contra os cátaros na Lombardia,
no século
XIII; contra frei Dolcino, no Piemonte, no século XIV, e contra
os
hussitas, na Boêmia, nas décadas de 1420 e 1430. Do
ponto de vista dos seus contemporâneos, porém, todos estes
massacres
eram moralmente justificáveis, embora, uma Cruzada em defesa
da
Terra Santa ou para a reconquista de Jerusalém, naturalmente
tivesse maior prestígio.
Seja como
for, e por mais horripilantes que tais coisas nos possam parecer
sob a óptica de hoje, de 1095 até pelo menos
1400, as
Cruzadas foram uma atividade devocional genuinamente popular,
sendo seu período de maior efervescência aquele registrado
entre os anos entre 1187 a 1250.
Atraíam leigos de todas as classes e eram acompanhadas
por
exercícios penitenciais e litúrgicos, os quais constituíam
características
marcantes do culto popular da época.
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