Notas Sobre as Cruzadas


Assalto a Jerusalém em 1199 ( Primeira Cruzada)
Iluminura do século XIV

As Cruzadas foram guerras proclamadas pelo papa, em nome de Cristo, e travadas como se fossem uma iniciativa do próprio Cristo para a recuperação da propriedade cristã ou em defesa da Cristandade, contra inimigos internos ou externos.
Os movimentos das cruzadas, os quais, num certo sentido foram uma extensão da guerra que estava sendo travada contra os muçulmanos na Espanha e na Sicília, encontraram respaldo nos escritos de Santo Agostinho, bispo de Hipona, que vivera setecentos anos antes...
Agostinho defendia o conceito da "violência divinamente autorizada". Séculos mais tarde, (séc XVI) Maquiavel afirmaria a mesma coisa com palavras diferentes, ao pontificar que o "fim justifica os meios". Mas a este a Igreja Católica não canonizou...
Na altura, contudo, o pontífice contou com a ajuda extra do fanatismo sombrio de certo monge pregador, o terrível Pedro, o Eremita, o qual arregimentou populações inteiras da Europa, principalmente entre os "simples", embora não fosse exatamente este tipo de ovelha que o papa tinha em mente... Afinal, seu discurso, pelo menos no início, visava mobilizar as ovelhas poderosas do seu rebanho. Na verdade ele precisava (e muito) consolidar e demarcar o redil.

A Primeira Cruzada foi pregada pelo papa Urbano II, no Concílio de Clermont, em 1095.
Sua justificativa era a recuperação da herança de Cristo (Terra Santa e arredores), e a proteção dos cristãos contra o avanço muçulmano. Esta dupla causa foi comum a todas as outras expedições contra o Leste e, desde o princípio, lhes deram o caráter de peregrinações.
Foi um sucesso e tanto... Os cruzados tomaram Antioquia, (1098) Jerusalém, (1099) e estabeleceram o principado de Antioquia, o condado de Edessa e Trípoli, e o Reino Latino de Jerusalém, os quais sobreviveram até 1291.

A esta seguiram-se a Segunda Cruzada, (1145-48) e a Terceira, (1188-92) no decorrer da qual, Chipre caiu sob domínio latino, sendo governada por europeus ocidentais até 1571.

A Quarta Cruzada (1202- 04) desviou-se do seu curso, atacou e saqueou Constantinopla (Bizâncio), estabelecendo domínio latino na Grécia.

A Quinta Cruzada (1217- 21) foi a primeira do rei Luis IX de França. Contudo, houve também um grande número de empreendimentos menores (1254 -91), e foram estes que se converteram na forma mais popular de cruzada.
Houve cruzadas (ou planos para elas) nos séculos XIV e XV; cruzadas no Mediterrâneo oriental no século XVI; e por incrível que possa parecer, a Ordem de São João (Hospitalários) ainda estava envolvida numa guerra contra os turcos no século XVIII...

Até o século XVI, as Cruzadas eram periodicamente pregadas na Espanha, mas o combate aos adversários políticos do papado parece ter sido introduzido entre seus objetivos pelo papa Inocêncio III, em 1135, quando concedeu indulgências aos que lutavam contra os Normandos e contra o antipapa, Anacleto. Depois dele essa política foi usada descaradamente pelos outros papas, nos séculos XIII e XIV, na Itália contra os Hohenstaufen e gibelinos em geral. Muitas dessas iniciativas terminavam em tragédia e fracasso, como a curiosa "Cruzada das Crianças", em 1212. O mesmo Inocêncio III deflagrou a brutal cruzada contra os Cátaros do Languedoc.

Seguir-se-iam cruzadas contra os camponeses de Staedinger, na Alemanha e contra os cátaros na Lombardia, no século XIII; contra frei Dolcino, no Piemonte, no século XIV, e contra os hussitas, na Boêmia, nas décadas de 1420 e 1430.
Do ponto de vista dos seus contemporâneos, porém, todos estes massacres eram moralmente justificáveis, embora, uma Cruzada em defesa da Terra Santa ou para a reconquista de Jerusalém, naturalmente tivesse maior prestígio.

Seja como for, e por mais horripilantes que tais coisas nos possam parecer sob a óptica de hoje, de 1095 até pelo menos 1400, as Cruzadas foram uma atividade devocional genuinamente popular, sendo seu período de maior efervescência aquele registrado entre os anos entre 1187 a 1250.
Atraíam leigos de todas as classes e eram acompanhadas por exercícios penitenciais e litúrgicos, os quais constituíam características marcantes do culto popular da época.