Filipe, o Belo


Filipe IV de França (Philippe, le Bel) com os quatro filhos e seu irmão, Charles de Valois.
Iluminura do século XIV.

Filipe IV, o Belo, rei de França entre 1285-1314, foi um dos mais enérgicos e poderosos monarcas franceses, embora tenha deixado uma reputação muito contraditória. Sua oposição às pretensões papais durante o pontificado de Bonifácio VIII, em última instância, foi coroada de êxito, ainda que envolvesse o brutal tratamento dado ao papa na chamada "Humilhação Anagni". (Bonifácio, feito prisioneiro por enviados de Filipe, foi tratado com tamanha brutalidade que veio a falecer logo após sua libertação.)
Até o próprio Dante Alighieri, que detestava Bonifácio por considerá-lo indiretamente responsável por seu exílio de Florença, protestou contra o tratamento dado ao papa.
Por outro lado, se o malévolo tratamento inflingido aos Templários, o qual culminaria com a abolição da Ordem e o sacrifício de Jacques de Molay, certamente resultou num considerável ganho financeiro para a Coroa, mas sua atitude indignou a opinião pública responsável.

Após a eleição do arcebispo Bertrand de Bordéus, como papa (sob o nome de Clemente V) e sua posterior retirada para Avignon, ele passou a manipular o papado como bem entendeu. Compreende-se que a tendência geral para centralizar a autoridade e a administração na França de Filipe IV representou o ponto culminante da política iniciada no reinado de seu avô, Luis IX. Entretanto, ao reinado filipino faltou o prestígio moral e espiritual da era anterior.

Filipe IV, pelo menos em aparência, nem sempre fora tão hostil ao Templo. Uma curiosa prova disso é que Jacques de Molay, o último Grão-Mestre da Ordem, chegou a ser padrinho de batismo de um de seus filhos. Aliás, embora esta prática fosse contrária à regra, um Grão-Mestre de outros tempos, Renaud de Vichiers, apadrinhara de um dos filhos de São Luís de França, na pia batismal de Château-Pélerin, onde o rei Luís IX permanecera algum tempo, logo depois de sua libertação de uma prisão egípcia.

Por sua vez, Filipe, apesar de cristão fanático (e megalômano) foi também um estadista e, como tal, jamais poderia ser desprovido do senso de oportunidade. Senso este, no caso do rei de Fraça, bastante agudo... Assim, ele não perdeu a oportunidade, quando esta surgiu sob a forma da queda de St. Jean d'Acre e diante da impossibilidade templária de manter os reinos latinos do Ultramar, afinal, praticamente a verdadeira "raison d'être" da Ordem do Templo.
E já que a Terra Santa estava perdida e, pelo menos no momento, sem qualquer possibilidade concreta de reconquista, inspirado, quem sabe, pelas idéias do místico franciscano, Raimundo de Lulle, poeta, alquimista e fanático.
Lulle (ou Lull) era catalão, e tão maluco que os próprios xeques, acreditando nisso, o salvaram da morte pela lapidação, como teria desejado a população local, habitantes do Norte da África, os quais ele queria, por força, "converter" ao cristianismo. Os emires (por sinal, até bastante benevolentes) limitaram-se a prendê-lo, repatriando-o, mais tarde, fazendo com que embarcasse num barco cristão.

Na verdade Raymond de Lulle predicava uma espécie de "evangelização em massa" de todos os "infiéis", seguidores de Maomé. Na marra, é claro. Ele imaginara algum tipo de "força expedicionária cristã", composta por pregadores como ele, e como ele conhecedores da língua e dos costumes muçulmanos, mas também de guerreiros, com os mesmos dotes, porém capazes de outros modos de persuasão. Aliás, tais e tão santos ideais, nada tinham de pacíficos, pois pressupunham a conquista dos reinos muçulmanos. Como é evidente, os "guerreiros" capazes de atender estes pre-requisitos não seriam outros senão os Templarios e os Hospitalários de São João. Naturalmente, o Templo e o Hospital deveriam fundir-se numa nova Ordem, cujo Grão-Mestre, ou o mandatário supremo, acima deste, seria o Bellator Rex ("Rei Guerreiro").
Neste caso, o Bellator Rex seria não somente o rei de Jerusalém, como de toda a cristandade. E seu poder seria não só espiritual, como temporal...
Sobre Raymond de Lulle (e em benefício da verdade), será bom esclarecer que suas idéias não foram, de forma alguma, originais. A tal "conquista pela força da fé cristã e do convencimento armado", era um sonho antigo e bem anterior a ele próprio...
É claro que uma tal possibilidade seria caríssima a Filipe, o Belo. Na verdade, talvez até explicasse sua inicial benevolência em relação aos "Pobre Cavaleiros de Cristo", cuja Ordem nada tinha de pobre. Ao contrário, era uma potência. E temível.

Filipe, efetivamente, chegou a propor a fusão entre o Templo e o Hospital, solução refutada energicamente pelos mestres templários, que não aceitaram nem mesmo a candidatura do rei entre suas fileiras. Contudo, é mais que sabido que uma inimizade real pode ser mui perigosa... E foi assim que Filipe, o Belo, rei de França, decidiu destruir a Ordem do Templo de Salomão. E o conseguiu.