Afirmava
o Visconde de Almeida Garrett que “os Jesuítas foram os
templários dos tempos modernos”,
tese, aliás, pouco original visto que o Iluminismo já divulgara
amplamente a alegada confluência, quer de propósitos
quer de destino, de ambas as ordens.
O próprio marquês de Pombal, Sebastião José de
Carvalho e Melo, chegaria a sugeri-la numa missiva ao papa, na qual
expunha a conveniência da extinção da Companhia
de Jesus: “É necessário considerar, com toda a atenção
que o caso merece, o que a História nos diz a respito da severa
punição dos templários” .
Também Fernando Pessoa chegou a ponderar a questão,
já que subsiste em seu espólio um fragmento deveras
revelador:
”Padre Fulano, tem-me causado pasmo, como católico, o fato
de a sua Ordem (Companhia de Jesus) ter um Quarto Voto, e de esse
Quarto Voto ser o de obediência ao Papa. Parece-me que semelhante
voto é totalmente desnecessário num católico,
e até deixa presumir que seria de esperar dele uma falta de
obediência. Calculo por isso que o Voto não seja realmente
esse. Diga-me: realmente, verdadeiramente qual é o Quarto
Voto?
Invocavam todos, Pessoa, Pombal e Garrett, a vox populi, segundo
a qual, alguns dias antes do seu suplício, Jacques de Molay
teria pedido ao conde François de Beaujeu (que não
era templário professo), para descer à cripta do Templo
de Paris onde repousavam os restos mortais dos Grão-Mestres
da Ordem e recolher do sepulcro do seu tio, Guillaume de Beaujeu,
um estojo em cristal.
Uma vez recuperado o tal estojo e, supostamente entregue a Molay,
este teria iniciado François de Beaujeu nos mistérios
templários.
Confiando-lhe o referido estojo, no qual se conservaria o dedo indicador
da mão direita de São João Baptista, relíquia
oferecida à Ordem pelo rei Balduíno. Diga-se de passagem,
reliqia bem modesta... Porque não a cabeça do santo
logo de uma vez???? Bem...
Por fim, De Molay entregou-lhe, igualmente, três chaves, revelando-lhe
que, no sepulcro sob o qual achara o estojo, se encontrava uma caixa
em prata e, num nicho adjacente, uma outra caixa conservava os anais
do Templo e os principais segredos de que a milícia era detentora.
Acrescentou ainda que encontraria aí a coroa dos reis de Jerusalém,
o candelabro de ouro de sete braços e os quatro Evangelhos
de ouro que haviam ornado o Santo Sepulcro e se julgavam caídos
nas mãos dos infiéis. Finalmente, disse-lhe que as
duas colunas do coro do Templo, à entrada da cripta, eram
ocas e ocultavam um tesouro que podia ser resgatado, bastando desmontar
os capitéis e retirar-lhes os fundos.
Entretanto, De Molay receberia de Beaujeu o juramento de perpetuar
a Ordem, mediante a criação de quatro lojas em Paris,
Edimburgo, Estocolmo e Nápoles, com o objetivo de destruir
o poder espiritual (papa) e o poder temporal (monarquias). Após
o suplício do 22º Grão-mestre do Templo (18 de
Março de 1314), Beaujeu convocaria nove outros cavaleiros
sobreviventes para um consistório teria se reunido em Paris.
Nesse
conclave ficaria consagrado por um pacto de sangue um programa
de atuação, mediante o qual, além de se obrigarem
a manter a instituição ativa, no maior segredo, enquanto
houvesse no mundo Nove Arquitectos Perfeitos (denominação
que adotaram para si próprios).
Duas congregações aparentemente antagônicas,
para cuja organização os presentes supostamente se
haviam comprometido pugnar, seriam as executoras do legado: a Companhia
de Jesus e a Maçonaria.
Não deixa de ser curioso que a divisa Ad
Majorem Dei Gloriam,
evidente eco da Non nobis, non nobis, sed nomen tuo da Gloriam, dos
templários tenha sido partilhada pela Companhia ou Sociedade
de Jesus e pelo grau maçônico do Sublime Príncipe
do Real Segredo...
Apesar
de as certezas históricas permanecerem escassas, (na
verdade, nulas) a hipótese segundo a qual os jesuítas
desempenharam papel nuclear na formação e propagação
da maçonaria escocesa (também denominada escocismo)
apoia-se em argumentos interessantes. Um dos mais pertinentes baseia-se
no fato de que os chamados Altos Graus traduzem preocupações
filosófico-místicas, claramente transcendendo o catolicismo,
stricto sensu.
Atribui-se, geralmente, a Nicolas de Bonneville a divulgação
desta tese, que advoga uma aliança entre o partido jesuíta
(os Stuarts) e a maçonaria jacobita, incontestável
no quadro da política e plausível no domínio
das idéias. Por conta disto, não teria sido coincidência
o longo silêncio do papado em relação à maçonaria,
enquanto o escocismo manteve a preponderância sobre as lojas
anglicanas .
De fato, Bonneville nada mais fez que retomar, as acusações
contra os jesuítas, veiculadas pelos meios maçônicos,
(Estrita Observância), compelida a
sucessivas retificações, em consequência
das interferências constantes dos membros da Companhia de Jesus.
A infiltração dos jesuítas seria mesmo expressamente
denunciada no convento de Kohlo, em 1772, porém, o mesmo já sucedera
em relação aos graus ditos templários, pontualmente,
desde a criação do grau de Cavaleiro Kadosh, cerca
de 1762.
Tornam-se,
assim, sintomáticos
os elos entre a Ordem de Cristo e a Sociedade de Jesus, que Fernando
Pessoa deixa entrever:
”E é de notar que estando a S. J. dentro da O. C. e fazendo
dela parte, OS Chefes Secretos de uma e de outra são todavia
diferentes (diversos, distintoS). O próprio nome S. J. não é senão
o nome O. C. traduzido para a designação de uma Ordem
do Átrio (Pátio): onde está Ordem em cima está Sociedade
em baixo, onde está Cristo em cima está em baixo Jesus,
que é a inc rnação de Cristo”
Igualmente
interessante, o trecho de uma obra famosa de Cadet
de Gassicourt, tradução portuguesa anônima, intitulada "O
Túmulo
de Jacob Molai ou História Secreta
e abreviada dos Iniciados antigos, e modernos, dos Templários,
Franc-Massões, Illuminados: pesquisas e indagações
da sua influência na Revolução Francesa, seguida
da Chave, signaes ou verdadeira intelligencia das lojas".
O trecho em quetão vai reproduzido abaixo:
[...] a Sociedade Jesuítica era animada de um espírito revolucionário
análogo ao sistema dos Templários, dos Conspiradores Iniciados,
dos Iluminados, dos Perfeitos Franco-Maçons ou verdadeiros Pedreiros
Livres, que é o mesmo. O capitão Jorge Smith provou na obra já citada
por suas sábias e profundas reflexões que os misteriosos segredos
jesuiticos, a sua correspondência hieroglífica as provas às
quais eles expunham os noviços, enfim a sua Constituição
Secreta e tudo quanto havia na Sociedade, tudo eram práticas e máximas
verdadeiras franco-maçónicas. A necessidade de ter uma correspondência
que os estranhos não pudessem perceber com os sócios que habitavam
nos diferentes países do mundo lhes fez inventar a escrita das cifras,
como a mais conducente ao Universal sistema da sua instituição.
[...] diz Smith que os jesuítas exprimiam as letras por um número
igual ao lugar que elas têm no alfabeto servindo-se das letras para exprimir
as cifras, vindo a ser por este meio fácil a correspondência sem
que os outros a entendessem ou adivinhassem. Os graus da Ordem eram os mesmos
que são hoje os da Franco-Maçonaria ou pelo menos correspondem
em tudo aos outros, de modo que as letras iniciais dos títulos que tomavam
e os Santos, senhas ou divisas são as mesmas:
| |
Graus
dos Franco-Maçons |
|
|
Graus
Jesuíticos |
| 1º |
Aprendiz
— Tubalcain — T |
|
1º |
Temporalis — T |
2º |
Companheiro — Sibboleth — S |
|
2º |
Scolasticus — S |
3º |
Mestre
— Chiblím — C |
|
3º |
Coadjutor — C |
4º |
Mestre
Escocês — Notum — N |
|
4º |
Noster — N |
Os
jesuítas, nas suas obras,
traduziam as palavras mai-son e maçon pelas palavras gregas
lathomos, lathomia. A primeira significa ”canteiro de pedra” e a
segunda “calabouço”, “prisão” ou “morada secreta e
escandalos”a, e por isso chamavam aos maçons lathomos para
significarem homens fechados em lojas [...]. Seria demasiadamente
extenso se houvesse de seguir ao capitão Smith [...] enfim,
a história, a constituição dos templários é a
mesma, ou pelo menos em tudo semelhante com a da Companhia chamada
de Jesus. De maneira que todos aqueles que pelo estudo da história
estão convencidos do poder, cobiça e perfídia
dos templários igualmente o estão de que os jesuítas
lhes não ficavam atrás e por isso aplaudiram a sua
extinção, mas eles devem saber o que talvez inteiramente
ignorem, isto é, que a bula de Ganganeili não suprimiu
mais do que o exterior da roupeta e do grande chapéu e o poderem
eles viver juntos e livremente com estes exteriores e imposição.
Isto é o que fez a bula daquele Pontífice bem como
a de Clemente fez aos templários, porém a doutrina,
os segredos misteriosos, os sistemas maquiavélicos e os laços
da cmn fraternidade tanto de um como dos outros ficaram apesar das
bulas de extinção, subsistindo na Sociedade dos Pedreiros
Livres. Há templários e jesuítas por toda a
parte, nos privados Conselhos dos Soberanos, dentro do Directório,
nos Tribunais, nas Administrações Civis, à frente
dos Exércitos de todas as nações, nos Parlamentos
Ingleses, no mesmo Vaticano, no..., os Governos os reconhecerão
um dia..., mas pode muito bem ser que já, seja tarde."
Bem... Parece meio apocalíptico, é verdade...
Enfim, as “Teorias Conspiratórias”, servem para isso mesmo...
E
o mito templário sempre foi um manancial inesgotável.
Infelizmente, quem quiser embarcar nessa, vai ter que abrir mão do dedinho
do
São João Batista... O problema é que, nesta parte do mito,
as datas não coincidem nem por reza brava.
Santo Inácio de Loyola não colaborou e resolveu nascer quase cem
anos depois
da execução de De Molay. Alguns Santos são mui teimosos.
A
não ser que...
Mas as conclusões possíveis (e as impossíveis, também), prefiro deixar para você,
caro Visitante.
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