JOÃO CABRAL DE MELO NETO

NOTAS BIOGRÁFICAS

Recife, 06-01-1920 - Rio de Janeiro, 10-10- 1999.

João Cabral nasceu no Recife, aos 6 de janeiro de 1920 e pertenceu a uma das mais antigas e tradicionais famílias de Pernambuco e da Paraíba. Família que aliás, já contribuíra expressivamente para nossa literatura, pois a ela pertenceram também Manuel Bandeira e Gilberto Freire.

Passou toda a sua infância nas propriedades rurais da família, convivendo com lavradores, gente que ele retrataria mais tarde, em sua obra Morte e Vida Severina..Estudou no Recife com os Irmãos Maristas, mas curiosamente, não chegou a cursar a Universidade, embora considerasse equivalente a uma Faculdade o que aprendeu, primeiro com Willy Lewin e mais tarde, com Joaquim Cardozo.

Publicou " Pedra do Sono" em 1942. Foi seu "debut" literário.
Seguiu a carreira diplomática e em 1947, serviu em Barcelona. Mais tarde em Londres, Sevilha, Marselha, Madri, Genebra, Berna. Promovido a embaixador em 1976, foi nosso representante no Senegal até 1979, quando passou a representar o Brasil no Equador.Foi embaixador do Brasil em Honduras até 1984 e, em 1986, Cônsul Geral do Brasil na cidade do Porto (Portugal).
Foi eleito por unanimidade (fato raro) para a Academia Brasileira de Letras em 1968, na vaga de Assis Chateaubriand.

A ESTÉTICA DE JOÃO CABRAL

Sua poesia é antes de tudo concreta e visual e foi um verdadeiro marco dentro da nossa literatura, pois opunha-se ao principal curso da poética nacional que sempre fora retórica, sentimental (às vezes sentimentaloide) e muito ornamental.João Cabral de Melo Neto, construiu então sua própria poesia, por definição, uma poesia não-lírica e não-confessional, ligada à realidade e dirigida exclusivamente ao intelecto.
Com o poema O Cão Sem Plumas (1950), ele já demonstra suas preocupações sociais, como aconteceu com vários de nossos poetas nas décadas de 50 e 60.O texto marca bem sua aversão aos poemas melosos e muito românticos, pois ele emprega versos secos, rascantes, onde as emoções são pensadas, as imagens construídas, e tudo o que é supérfluo
ou enfeitado de plumas e rococós, sistematicamente rejeitado.
João Cabral é tido como o único poeta da geração de 45 que influenciou a forte geração posterior, formada pela vanguarda brasileira dos anos 50 e 60, principalmente a vanguarda concreta.
Seu universo poético era o da zona da mata e do sertão nordestino, por isso sua poesia (assim como também a de Manuel Bandeira) nos remete constantemente às cidades de Olinda e de Recife, embora sob seu próprio prisma. São os mesmos casarões antigos , seus mares e rios importantes como o Beberibe e o Capibaribe, e os canaviais da zona da mata pernambucana, mas ele nos remete também para a vegetação escassa da caatinga e à tragédia do agreste brasileiro.
Com certeza por conta disso,dois de seus livros, "Pedra do sono", de 1942 e "A educação pela pedra", de 1966, trazem no título a idéia de pedra, símbolo da secura sertaneja e do solo pedroso da região.
Apesar da variedade exuberante dos ritmos pernambucanos, João Cabral de Melo Neto foi um poeta essencialmente não-musical, avesso principalmente à melodia e à musicalidade do verso.
Seu trabalho de linguagem e construção foi rigoroso e sua poesia é dura, feita, como ele mesmo afirmava, "de pedras" e a "palo seco".
Buscou inspiração na aridez geográfica e humana do sertão para se tornar, também ela, uma poesia seca e exterior.
Costumava dizer que "poesia é risco".
Uma de suas características principais, era a tentativa de chamar a atenção das pessoas sobre a realidade da vida, através de poemas que buscassem acabar com o “abismo que separa o poeta de seu leitor”. Para tanto, escreveu textos para serem lidos em auditórios e textos para serem lidos em silêncio e reflexão.
Em "O Rio", sua obra prima, aproximou o verso da narrativa, e recuperou formas populares como no " Auto do Frade", e em Morte e Vida Severina (1965).
Para além disso, João Cabral tinha uma preocupação com a morte que chegava a ser obsessiva, e em seu livro "Agrestes" (1985), dedicou uma seção inteira ao tema. Aliás, "esta recorrência temática" já vinha de longe, e ele a atribuía ao seu próprio medo da morte ( temor que ele mesmo classificava como "estúpido e imbecil") e culpava por isso sua rígida educação católica. Ainda assim, não conseguia libertar-se do medo do Inferno..
Sua principal arma para lidar com os estados depressivos e toda essa inquietação interior, sempre fora a poesia, entretanto, nos últimos anos de sua vida enfrentou severos problemas de saúde e ficou quase cego, situação que o impedia de ler e escrever.
Comentou numa entrevista dada a um jornal brasileiro: «Não adianta eu ditar para alguém, porque preciso ver a minha letra construindo o verso. Eu escrevo como quem constrói uma casa.»
E se não mais podia escrever, fica privado também da leitura. «Não leio mais nada. Para mim é uma tortura não poder ler. Desde menino pequeno não fiz outra coisa senão ler. Mas hoje não consigo, de forma que sou um ex-escritor».
Ainda assim, conseguiu concluir alguns poemas e chegou a publicar, em 1994, o livro "João Cabral de Melo Neto - Obra Completa".
Afinal, João Cabral de Melo Neto, acabou buscando de volta os antigos princípios católicos dos quais tanto se afastara, e quando morreu aos 79 anos, no Rio de Janeiro, no dia 9 de outubro de 1999, estava de mãos dadas com a mulher e haviam acabado de rezar juntos um Pai Nosso.


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