As Ordens Militares


Cavaleiro

As ordens militares foram associações de cavaleiros, gente do povo, ou mesmo monges, que seguiam a regra monástica estabelecida pelo papa ou por um concílio da Igreja.
As tentativas de implementar uma reforma do Cristianismo então vigente (já muito distorcido), ganharam força durante o século XI. Assim, a revisão dos antigos ideais da cavalaria vieram à tona, no mesmo período.

Em 1120, em Jerusalém (e em condições ainda mal esclarecidas, apesar de tudo quanto se tem escrito), foi fundada a primeira ordem religiosa-militar medieval, a Ordem do Templo.
Seus primeiros adeptos se diziam os "Pauperes commilitones Christi templique Salomonici", ou seja, os “pobres soldados de Cristo e do Templo de Salomão”.
Estes obedeciam a um mestre, seguiam uma regra e comprometiam-se a defender os peregrinos ao longo das rotas que levavam a Jerusalém.

A Igreja romana reconheceu a legitimidade desta experiência no início de 1129, quando um concílio reunido em Troyes, sob a presidência de um legado papal, homologou sua regra.
Pouco tempo depois, são Bernardo, que tomou parte ativa nesse concílio, escreveu em sua intenção o "De laude novae militiae" ou "Elogio da nova cavalaria", justificando ali a missão daqueles que eram, a seus olhos, monges e cavaleiros ao mesmo tempo.

Porém, deve ficar bem claro (para evitar as confusões comuns) que ordem militar não é o equivalente de ordem de cavalaria. As sociedades ocidentais produziram, em diferentes momentos de sua história, “cavalarias” e “ordens de cavalaria”. Isso é sabido. Contudo, se a ordem militar do Templo se dirigia prioritariamente a cavaleiros, incorreríamos em erro inscrevendo-a em uma continuidade histórica. Sua experiência é nova e original, pois suas raízes encontram-se nas mutações ou, simplesmente, na evolução da sociedade ocidental depois do ano mil, com o advento das guerras “religiosas e de conquista”, conhecidas como “Cruzadas”.

De fato, em diferentes épocas apareceram grupos corporativos, às vezes qualificados pela palavra ordo (plural, ordines), ordem, cujo qualificativo, eqüestre, cavaleiresco, faz referência ao cavalo.
Em Roma, sob a República, as 18 centúrias de cavalaria eram recrutadas entre os cidadãos ricos, sendo que cada selecionado recebia um “cavalo publico”. Em grupo formavam a Ordem Eqüestre, inteiramente distinta da Ordem Senatorial.

A expressão ordo equester é rigorosamente equivalente a equites romani ou equites romani equo publico. Sob o Império Romano, as funções administrativas e militares, cada vez mais desprezadas pela aristocracia, eram confiadas aos cavaleiros (eques, equites), tendo portanto a ordem eqüestre o papel de produzir uma “elite” a serviço do Estado. Porém, ela acabou por se diluir na ordem senatorial e desapareceu, no final do baixo Império, sem deixar traços para a posteridade.

As ordens militares da Idade Média nada lhes deviam, ou quase nada. É bem verdade que certos clérigos que leram os autores latinos utilizaram, às vezes, a expressão ordo equester para designar a ordem dos combatentes, na organização da sociedade que eles dividiam teologicamente falando, em em três "ordens" ou três "funções". Foi o caso de Guibert de Nogent no início do século XII.


Os romanos também conheciam o termo miles para designar o soldado em geral. Ao contrário do que se poderia pensar, o Exércitos Romano concedia grandes vantagens aos soldados de infantaria, aos "pedestres". Militia significava, portanto, serviço militar ou "ofício de soldado" e militare, "servir nas armas" ou ser soldado. O comando cabia aos magistri militum ou magistri militiae. Porém, já no baixo Império (sécs.IV-V), ocorreram sensíveis transformações no exército e na administração, e assim as funções civis e militares, até então separadas, se confundiram (salvo durante o período de Diocleciano), passando a ser cada vez mais exercidas por militares.

No mesmo momento, no exército, a cavalaria ganhou mais importância e distinguiu-se o magister peditum do magister equitum. A palavra miles, porém, conservou o sentido genérico de soldado. Em contrapartida, o termo militiae acabou qualificando toda função pública a serviço do Estado. Foi o sentido que prevaleceu no Código de Justiniano, no século IV.

Ao longo da Idade Média, a cavalaria tornou-se a principal arma dos exércitos, e o cavaleiro, o modelo do combatente. A palavra miles (plural, milites) designava isso. Mas essa palavra, embora mantendo o sentido técnico daquele que combate a cavalo, foi contaminada por um sentido ético, passando a designar a elite dos combatentes a cavalo.
As línguas vernáculas, em sua maior parte, distinguiram esses dois sentidos com duas palavras diferentes. Por exemplo, cavalier-chevalier, em francês, ritter-reiter, em alemão, knight-rider ou horse-man, em inglês. Em contrapartida, cavaliere, em italiano e caballero, em espanhol permanecem únicas.

Os clérigos dessa época imaginavam a sociedade cristã ideal dividida em três ordens (ou três funções) hierarquizadas e solidárias: os que rezavam, os que combatiam (e que comandavam), os que trabalhavam. Os cavaleiros eram colocados na segunda, a ordo pugnatorum, a ordem dos combatentes (ou bellatores), mas essas “ordens” não correspondiam a nenhuma corporação.

A combinação entre a vocação monástica e a vida militar na sociedade medieval começou a ser estimulada pelo clero, (particularmente o papa) afim de controlar e desviar para outros rumos a agressividade e os atos de violência indiscriminada, tão naturais na rude nobreza européia. Foi uma valente tentativa de "civilizar" estes nobres (mas brutais) cavaleiros, cujos os costumes eram pouquíssimo cristãos, mesmo para os padrões da época.
Todavia, seriam esses mesmos cavaleiros que iriam fornecer os membros mais eminentes aos quadros das ordens militares que surgiram depois.

Certos críticos medievais haviam também objetado que, aos olhos do mundo, a vocação militar pareceria contraditória aos ideais monásticos de recolhimento e contemplação. Contudo, isso foi prontamente refutado, pois parte dos movimentos reformistas do século XI, os quais visavam justamente aplicar alguns princípios da vida monástica no dia a dia dos cristãos em geral.

" A Paz e a Trégua de Deus" decretados pelo papa, a conselho do abade Odilon, de Cluny, são bons exemplos de como a Igreja já tentava refrear, ou pelo menos mitigar, o conhecido ímpeto guerreiro da nobreza.
Na altura, certos teólogos objetaram contra a idéia da fusão entre a vocação militar e monástica, alegando que tal relação feria o Direito Canônico. Afinal, padres e monges em princípio não poderiam derramar sangue.
Pelo menos, não com as próprias mãos...

A fórmula encontrada para contornar este "pequeno problema técnico", o qual tão abertamente desobedecia às Leis Canônicas, consistiu em transformar os membros combatentes destas ordens em "irmãos leigos".
A criação do status de " não-clérigo" para estes cavaleiros foi mesmo uma boa saída, embora seus membros, do mesmo modo que os monges pertencentes às ordens tradicionais, também fizessem votos de pobreza , castidade e obediência.
Entretanto, sempre houve monges-clérigos entre os membros das ordens militares, embora, oficialmente estes ali se encontrassem apenas na qualidade de capelães, e jamais como cavaleiros, sargentos ou escudeiros.

Enfatizou-se, contudo, que o inalienável dever dos guerreiros cristãos consistia em proteger mulheres, crianças, ou quem quer que fosse mais fraco do que eles mesmos.
Na verdade, vários teólogos já haviam traçado paralelos entre os ensinamentos de Cristo, que ressaltam em vários pontos o fato de "não haver maior demonstração de amor do que dar a própria vida por seus semelhantes", e esta vocação para o auto-sacrifício passou a fazer parte dos ideais da Cavalaria-Cristã, dentro ou fora das Ordens Militares.

Por outro lado, "monges-combatentes", norteados por princípios rígidos, já se prenunciavam como contraponto às regras frouxas e aos costumes dissolutos que haviam regido as fraternidades de cavaleiros até o século XI.
Antes disso porém, alguns grupos de nobres cavaleiros já haviam passado a proteger sistematicamente certas abadias, e acredita-se que seu exemplo também tenha contribuido para a posterior implementação das Ordens Militares.

Primeiro o Templo e o Hospital (este uma iniciativa dos comerciantes de Amalfi), seguidos pelos Cavaleiros Teutônicos e pelas ordens espanholas. Não se pode porém, definir essas ordens como ordens de cavalaria. Eram antes ordens religiosas, como Cluny e Citeaux (aliás, as ordens espanholas, à exceção da de Santiago, eram todas filiadas a Citeaux), mas ordens religiosas que se dirigiam em primeiro lugar — porém não exclusivamente, é claroà cavalaria, mas que respondiam às exigências religiosas. Os templários não eram monges convencionais, mas religiosos do tipo militar. Mais exatamente, “monges-combatentes”.
Entretanto, existiram numerosas ordens menores em épocas e locais diversos. Notáveis exemplos das pequenas foram as ordens espanholas de Santiago, Calatrava e Alcântara, a ordem inglesa de St. Thomas of Acre e mesmo certas ordens balcânicas, de menor duração, como a Ordem da Espada e a Ordem de Dobrin. Houve ainda a Ordem Síria de São Lázaro, aparentemente reservada aos cavaleiros leprosos.

Seja como for, as genuínas Ordens Militares foram aquelas primeiro criadas na Terra Santa, nos primórdios do século XI.
Essas Ordens logo se tornaram um esteio na defesa dos Reinos Cruzados e, na verdade, se constituíram no primeiro exército profissional compacto e disciplinado visto pelo mundo latino desde a queda do Império Romano.

É caro que sua difusão ocorreu de forma similar e concomitante ao ampliamento da idéia das Cruzadas.
Mais tarde, essas "atividades cruzadas" foram "alargadas" para ações na Espanha, Sul da França e Báltico, até finalmente se deteriorarem completamente, principalmente na Itália, como instrumento anti-imperial.
Suas operações, então, estenderam-se para dentro da própria Europa ou procuraram outros teatros para suas atuações.

A partir do século XIV, as circunstâncias e as necessidades que haviam gerado a criação e o impulso dessas ordens militares arrefeceram, mas, à exceção do Templo, não desapareceram. Tampouco a cavalaria, que continuou a representar o ideal e os valores guerreiros de uma nobreza em dificuldades, devido à crise do final da Idade Média.
Os príncipes precisaram sempre da nobreza e se serviram da cavalaria para lhe dar confiança, criando ordens de cavalaria leigas que acolhiam os cavaleiros mais dignos de exemplo. A ordem da Banda em Castela foi uma das primeiras, mas as mais célebres foram a ordem da Jarreteira, na Inglaterra (1347) e a ordem do Tosão de Ouro, nos Estados borgonheses (1429). A ordem da Estrela, fundada por João, o Bom, na França, reunia 500 cavaleiros (1350).


Essas ordens leigas não tinham vínculos com as ordens religioso-militares e não procediam da mesma inspiração nem das mesmas necessidades. Seus contemporâneos, porém, acreditaram numa ligação ao fazer dessas ordens instrumentos de uma religião real. Na British Library de Londres encontra-se um manuscrito em que a regra latina do Templo é associada aos estatutos da ordem do Tosão de Ouro.

Ordens de cavalaria leigas e ordens religioso-militares acabaram, porém, por se encontrar. Nas épocas moderna e contemporânea, todo Estado e todo principado faziam questão de se dotar de ordens de mérito.
Na França, as reviravoltas revolucionárias acarretaram a criação de uma ordem totalmente nova, a ordem da Legião de Honra, mas a Ordem da Jarreteira, na Inglaterra e a ordem religiosa-militar de Avis, em Portugal foram igualmente transformadas em ordens de mérito.
Algumas ordens religioso-militares criadas na Idade Média sobreviveram até nossos dias, mas renunciando ao caráter militar, que fazia sua originalidade, para se reconverterem em ordens beneficentes. Foi o caso da Ordem Teutônica, cuja sede se encontra-se hoje em Viena, ou da Ordem dos Hospitalários, transformada na Ordem de Malta e agora fixada em Roma. Essas ordens retomaram a missão caritativa que foi a de seus primórdios, antes da militarizaçao, conservando, porém, um aparato militar que não impressiona mais do que a espada de um acadêmico...