Assembléia de Cavalereiros Templários em 22 de 1147
François Marius Granet

Para evitar maiores confusões é bom salientar que, na Idade Média, havia algumas sutis diferenças em relação ao significado de certos termos, nos documentos escritos em latim. Por exemplo, este é o caso das palavras latinas praeceptoria e praeceptor. Praeceptor, seria quem comanda, que dá uma ordem, mas também aquele que guia, que ensina. Nos textos redigidos em vernáculo encontram-se as palavras commanderie, commenda, encomienda, Komturei ou Kommende; do mesmo modo se utiliza a palavra commandeur (que lhe deu origem), comendeor, comendador, Komtur. Não é preciso portanto traduzir as palavras latinas por “preceptor” ou “preceptoria”, uma vez que já estão traduzidas por “comendador” e “comendadoria”.
Realmente, as coisas se tornam totalmente absurdas quando se pretende introduzir uma hierarquia entre comendador e preceptor...

O termo “comendadoria” era utilizado a torto e a direito para designar qualquer casa de uma ordem militar. Aí também convém ser mais rigoroso. A comendadoria não era nem uma casa (domus) nem um convento, mas uma circunscrição, que podia compreender uma ou várias casas. Assim, os templários do condado de Auxerre possuíam uma comendadoria cuja sede ficava em Sauce e da qual dependiam casas e propriedades situadas em Auxerre, Monéteau, Vailan, Saint-Bris, Serei Tourbenay, Coulanges e até em Villemoison, na outra extremidade do condado, no Loire. E assim por diante.

A confusão geralmente feita entre comendadoria e casa levou à apresentação de números extravagantes para a quantidade dessas comendadorias. Mateus Paris, que escrevia na metade do século XIIII, afirmou que o Templo possuía 9.000 herdades (no sentido de domínios, de casas) e os hospitalários, 19.000, na Europa. Esses números são, sem dúvida, exagerados e, de todo modo, só podem ser válidos para casas e membros, jamais para comendadorias.

Os monges de Cluny ou de Cîteaux entregavam-se à meditação e à prece. Em toda parte levavam o mesmo gênero de vida; em toda parte a organização do mosteiro era a mesma. As missões das ordens militares eram diversas (militar, caritativa, hospitalar) e exercidas de modo diferente segundo estivessem instaladas no “front” ou na “retaguarda”. Entretanto, adotaram regras de organização bem semelhantes, havendo claramente uma família das ordens militares. Calatrava, por exemplo, embora integrada à ordem cisterciense, se parecia tanto com o Templo quanto com Clairvaux.

Todas as ordens apresentavam uma organização hierarquizada, em três níveis: central, provincial e local. Além disso, compunham-se de três classes: os cavaleiros propriamente ditos, que constituíam os “quadros”, os capelães e os sargentos, homens livres, mas não nobres, que formavam, digamos, a tropa de elite.

Os cavaleiros do Templo faziam o juramento de jamais fugir, durante o combate, ainda que fosse um contra três e não podiam abandonar nem mesmo um “palmo de terra”. Não tinham também o direito de avançar sem ordens expressas. Todavia, em caso de serem feitos refens, o Templo jamais pagava um único tostão de resgate por suas vidas. Mesmo que o prisioneiro fosse o próprio Grão-Mestre. Aliás,o Grão-Mestre, seu chefe supremo, quando em combate, devia sempre colocar-se no lugar de maior perigo.

Além de um amplo manto branco, os cavaleiros usavam uma espécie de capuz e uma clâmide, também branca. A capa dos sargentos era preta. Já os capelães se vestiam inteiramente de negro. Em 1146, o papa Eugênio III, protetor da Ordem, autorizou-os a usar uma cruz vermelha, de um feitio especial (geralmente pateada), sobre o ombro esquerdo. Sua divisa , “Non nobis Domine, non nobis sed Nomini Tuo da gloriam” são palavras do Salmo 115:1, as quais podem ser traduzidas como: "Não por nós Senhor, não por nós, senão para maior glória do Teu Nome".

As refeições eram feitas em comum. Os cavaleiros comiam dois a dois em cada escudela. Pelo menos é o que prescrevia a regra, embora nada nos garanta que isso tenha sido levado muito ao pé da letra...

Os irmãos não podiam possuir bens ou dinheiro individualmente. Tudo pertencia à Ordem. Eles próprios também... Se fossem encontrados joias ou dinheiro nos despojos de um cavaleiro morto (em combate ou não), enterravam-no como a um cão.

Não se exigia qualquer explicação do estado civil aos sargentos; pretendia-se apenas que fossem bravos e obedientes. Neste particular, constituíam uma espécie de “Legião Estrangeira” medieval, onde se refugiavam servos da gleba, que escapavam à vassalagem, vagabundos e pessoas “que haviam sofrido alguma perda grave ou grandes aborrecimentos”, como dizemos hoje em dia.
Por essas e por outras, não representa qualquer surpresa que o grau de cultura, educação e refinamento, variasse uma enormidade entre um “irmão” e outro. Isso explica, em parte, a intemperança verbal, proverbial entre eles. Assim,“praguejar como um templário” ainda é um dito conhecido atualmente. E lembrado...

Para os cavaleiros (os quais não chegavam um para cada dez sargentos) o recrutamento, contudo, era muito severo e precedido de um estágio probatório rigoroso.

À medida em que a Ordem crescia (e enriquecia) começaram a ser criadas “comendadorias” em toda a Europa, às quais se reuniram irmãos de outros ofícios, mas cujos préstimos eram necessários aos trabalhos de suporte e manutenção. Desta forma aproximaram-se pedreiros, artesãos, ferreiros, armeiros, agricultores e etc, que encontravam facilidades junto à Ordem, principalmente no que dizia respeito aos impostos. Além, é claro, da imprescindível proteção, pois eram difíceis os tempos que ora corriam.

Isto acontecia, pois os cavaleiros, e com eles os seus “clientes”, estavam fora da jurisdição de qualquer autoridade, clerical ou civil, além do Grão- Mestre e do Papa. Assim, constituíam, bem no meio da próprio cristandade, uma espécie de “estado independente virtual”, aliás, mais poderoso do que qualquer reino ou baronato, na altura. Em menos de um século, o número de seus membros já havia aumentado de forma impressionante. Fato que também não deve ser considerado razão de espanto...

Como vimos em outra página, a missão essencial dos templários era defender os Lugares Santos e o reino de Jerusalém, contra os seguidores do Islã. Nem sempre foram bem sucedidos, porém, apesar das críticas de que foram vítimas, seus detratores jamais ousaram acusá-los de covardia. Contudo, por força de tanto combaterem o inimigo “infiel”, isso acabou gerando uma certa proximidade e os dois lados acabaram, talvez, se conhecendo demasiado bem... Parece que chegou mesmo a haver estima e admiração mútua entre guerreiros rivais.
Enfim, como tão bem resumiu Michelet “os adversários lutam, uns contra os outros e se ferem por um ódio passageiro, que é a face horrível do amor eterno”. Bem...

Priorados ou províncias eram dirigidos por um mestre, título às vezes utilizado para designar, apenas o dirigente de uma província, um agrupamento intermediário regional. Com Jacques de Molay, mestre do Templo, morreu na fogueira Geoffroy de Charney, “mestre” da Normandia (ou “preceptor”). Curiosamente, não havia província da Normandia. Esta fazia parte da província da França. Mas encontramos também o termo “comendador” para designar o mesmo personagem.
De novo, um equívoco de tradução.

Os capítulos tinham que se reunir na sede central da Ordem. As decisões dos capítulos eram registradas nos retrais do Templo.
A direção do Templo estava instalada no front — no ultramar. A sede principal de uma ordem era chamada “casa de cabeceira”.
Até 1187 Jerusalém acolhia os quartéis-generais do Hospital (em frente ao Santo Sepulcro) e do Templo (a mesquita al-Aqsa e seus anexos).
Depois migraram para Acre, onde também se instalaram os Teutônicos e a ordem de St. Thomas.
Nenhuma delas, porém, voltou a se fixar em Jerusalém depois que, entre 1129 e 1244, a cidade santa voltou para as mãos dos francos, preferindo transferir sua sé para fortalezas inteiramente controladas por elas, como Château-Pélerin (depois de 1220), no caso dos templários ou o castelo de Montfort, no dos Teutônicos.

Expulsos da Terra Santa em 1291, os templários, hospitalários e Teutônicos refugiaram-se em Chipre, onde os templários “morreram”. Os teutônicos apenas passaram por lá antes de se fixar em Veneza, espécie de ponte entre a Terra Santa e a Prússia, finalmente escolhendo esta última em 1309 e fazendo de Marienburg a capital de um Estado teocrático. A cidade de Rodes, conquistada em 1310, desempenhou o mesmo papel (capital do Estado e sé da ordem) para os hospitalários, senhores da ilha de 1306-10 a 1522.

À frente de uma ordem religiosa-militar achava-se um mestre (magister) , título próprio das ordens militares e hospitalares. Os primeiros templários também pretendiam escolher seus mestres. A expressão “grão-mestre” só passou a ser empregada entre eles com freqüência, a partir do século XIII.

O mestre era eleito pelos irmãos de sua Ordem. Como as ordens militares nasceram no clima da reforma gregoriana, que restabelecia o princípio da regra de são Bento, o capítulo geral ao qual incumbia a eleição se reportava a um colégio eleitoral. Pelas indicações dos retrais do Templo, em caso de morte do Grão-Mestre, o marechal da Ordem, que assumia interinamente, dava conhecimento do “falecimento do mestre, o mais cedo possível, a todos os comendadores das províncias de aquém-mar (Ocidente) para que viessem no dia fixado, a fim de aconselhar a casa e eleger o grão-comendador, que assumia o posto de mestre (durante a eleição)

Depois, o capítulo nomeava um comendador da eleição, ao qual acrescentava um companheiro. Ambos designavam dois outros irmãos, e assim até 12. “E serão 12 em homenagem aos 12 apóstolos. E os 12 irmãos devem eleger conjuntamente o irmão capelão para o lugar de Jesus Cristo”.
No Templo, o mestre dispunha de poderes importantes, mas não era onipotente. Como é dito na regra, o convento, isto é, o conjunto dos irmãos da ordem, deve obedecer ao mestre, mas “o mestre deve obediência a seu convento”. Este era representado pelo capítulo, cuja composição era variável e a periodicidade, irregular.

O capítulo elegia o mestre e os dignitários, e era associado ao mestre pela escolha dos responsáveis provinciais (os quais deviam prestar contas de sua gestão perante o capítulo). O mestre consultava-o também para decidir sobre a admissão de novos membros, a alienação ou aquisição de propriedades, bem como para empréstimos e doações.

Um capítulo provincial reunia todo ano os comendadores de cada uma das províncias, priorados ou regni, tendo os mesmos poderes, em seu nível, que o capítulo geral: administração e nomeação, gestão, justiça etc.
Nas ordens da Terra Santa, o mestre da província aproveitava a reunião do capítulo para recolher a parcela dos rendimentos das comendadorias (responsiones) a ser transferida para o Oriente.

Os sinetes, evidentemente, também eram sinais de identidade. O mestre do Templo dispunha de uma “bola” ou bolha, matriz de dupla face que permitia escorrer cera em chumbo biface. Era conservada em uma bolsa e quebrá-la de raiva significava a perda do hábito para o irmão que cometesse tal ultraje.
Esse sinete do mestre podia valer como o da ordem, mas não era o único. Cada dignitário tinha o seu. Mestres ou priores de província, comendadores ou bailios tinham um sinete que, não raro, era usado como seu sinete pessoal. Daí a grande variedade de sinetes.

Pelo menos, os sinetes magisteriais, e os dos principais dignitários, foram constantes ao longo de toda a história das ordens. Porém, o sinete mais conhecido do Templo não foi o mais difundido. Tratava-se do famoso sinete representando dois cavaleiros sobre um único cavalo, que os contemporâneos do Templo interpretaram muito simplesmente como símbolo de pobreza ou de solidariedade. Originalmente, era o contra-sinete da “bola” do mestre, depois se tornou o sinete do Visitador da Ordem no Ocidente.

No sinete do mestre figurava o domo da Cúpula do Rochedo, o Templum Domini dos latinos, o monumento mais simbólico da esplanada do Templo, mas que era independente da ordem do Templo. Em seus primórdios, a Ordem recebera não apenas uma parte do palácio real, por ora instalado na Mesquita de al-Aqsa, mas também, da parte dos cônegos do Templum Domini, uma trecho do muro da esplanada, que dava para a casa de cabeceira do Templo. No sinete do Mestre de França, estampava-se a cúpula da igreja do Templo de Paris.