O Processo


A queima dos Templários
Iluminura do século XIV.

Não havia salvação para o Templo.
Tudo que precisava ser feito era incluir seus cavaleiros na qualidade de hereges e apóstatas para assim justificar a barbárie impetrada contra eles. Uma vez entregues à Inquisição, Filipe e Clemente poderiam dormir sossegados.

Mesmo que Clemente não acreditasse em uma única palavra das acusações contra o Templo (ele conhecia bastante bem os métodos da Inquisição para arrancar "confissões" de suas vítimas), sempre esteve plenamente disposto a sacrificá-los para salvar a pele da Igreja e a sua própria.

Logo no primeiro dia foram presos 15.000 membros do Templo, incluindo capelães, confrères, serviçais e trabalhadores. Apenas cerca de duas dúzias deles escaparam, entre os quais, Gérard de Villiers, o preceptor de França, e Imbert Blanke, o preceptor do Auvergne.

Todos os bens do Templo foram seqüestrados, a exemplo do que ocorrera alguns meses antes, com os Judeus e Lombardos.
Entretanto o golpe do rei contra o Templo, necessariamente deveria ser de um tipo diferente, pois eles não eram nem estrangeiros como os lombardos e, muito meno,"infiéis", como os judeus. Ao contrário, tratava-se de membros de uma corporação poderosa, que se encontrava sob jurisdição eclesiástica, sujeita ao papa, mas não ao rei.

Assim sendo, um processo contra os Templários colocava um problema jurídico de difícil solução, pois apenas Clemente poderia convocá-los perante seu tribunal.
Por outro lado, um processo individual contra os Cavaleiros não implicaria necessariamente no comprometimento da Ordem. Neste caso, mesmo que os indivíduos fossem condenados, sua Ordem permaneceria incólume.

Decidiu-se então, inculpar os cavaleiros de Templo individualmente, mas de modo que suas confissões pudessem ser usadas para condenar a Ordem como um todo. Assim, quando o Templo fosse julgado pela jurisdição papal, a condenação seria quase automática.

Na verdade, Filipe havia capturado pessoas e confiscado propriedades de uma Ordem livre. Cônscio da ilegalidade do seu ato, suas ordens de prisão incluíam o aviso de que Clemente V fora previamente consultado...

O papa, ao menos teoricamente, negou o conhecimento prévio de tal arbitrariedade, e enviou uma repreensão ao rei.
A tal "repreensão", no entanto, apesar do plural majestático, lembra mais um benigno "puxão de orelhas" dado por um tio benevolente no sobrinho recalcitrante, embora favorito. Começava nestes termos:
" Vós, nosso querido filho, (...) violaste em nossa ausência, todas as leis e deitaste mão a pessoas e propriedades dos templários."(...)
Bem...O resto segue por aí no mesmo tom..

Muita gente se beneficiou desavergonhadamente dos bens templários.
Fulques de Villaret, Mestre do Hospital, por exemplo, sabia há muito sobre os planos de fusão das duas Ordens, mas ficou quieto, pois sabia também que sua Ordem seria a principal beneficiária.
Realmente, pouco mais tarde, em 1312, através da bula Ad providam", grande parte dos bens do Templo eram transferidos para o Hospital.

Todos estes abusos ficaram claros mesmo na época, como se pode interpretar através dos versos de Dante Alighieri, no Canto XIX, do Inferno. Dante profetiza pela boca de Nicolau II, o papa simoníaco, a danação eterna de Clemente V, o qual, " tal como novo Jasão, despojara o Templo de Jerusalém para favorecer Antíoco, cujo favor lhe valera sua dignidade."
A alusão é obvia..

Para atingir a Ordem através de seus membros, foi fornecido aos Inquisidores um questionário, de 127 perguntas a submeter aos acusados, que naturalmente as responderiam sob tortura.
Os Dominicanos Inquisidores obviamente conheciam bem o seu ofício, portanto o arsenal de acusações era sempre muito parecido...

As acusações básicas eram sodomia (que quase todos os cavaleiros negaram, mesmo sob tortura) rejeição a Jesus e adoração ao diabo, sob a forma de um gato, ou uma "cabeça" , sobre a qual ninguém chegou a um acordo sobre o que se tratava. As testemunhas contrárias à ordem, referiam-se à tal cabeça (que jamais foi encontrada) como" Baphomet".

Tentaram acusá-los de contaminação pelo catarismo, embora nada tenha sido provado de concreto. Entretanto, os irmãos originários de Albi eram tratados de forma diferenciada pelos santos Inquisidores... Parece que a Cruzada Albigense não saciou plenamente seu ódio contra eles.
Conta-se que Bernardo de Vado, natural de lá, teve os pés tão queimados durante uma sessão preliminar de tortura, que seus ossos ficaram expostos...

Vários métodos de tortura foram empregados para obter confissões rapidamente. Entre os favoritos, estavam o cavalete (que provocava a desarticulação dos membros), fogo nas solas dos pés, privação de alimentos e água, privação de sono, e isolamento. Desta forma, num primeiro momento, todos confessaram qualquer coisa que lhes fosse ordenada confessar. Inclusive De Molay.

Não vale à pena detalhar o processo templário mais do que isso. Seria perpetuar acusações falsas contra uma Corporação vitimada por conjunturas perversas e dar crédito aos seus detratores.

Por outro lado, quem lê qualquer processo levado à cabo pela Santa Inquisição, compreende logo, que "quem viu um, viu todos"... De resto, os inquisidores eram pessoas disciplinadas, afeitas à rotina e sem muita imaginação...
O teor das suas acusações costumava variar ainda menos que a crueldade dos seus métodos.

Contudo, se alguém estiver interessado nos detalhes sórdidos deste processo "montado" por interesses escusos, sempre poderá consultar a bibliografia recomendada.