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![]() ![]() SOPHIA DE MELLO BREYNER
ANDRESSEN
Nascida no Porto, em 1919 à Porto, em uma família
aristocrárica, Sophia de Mello Breyner Andressen herdou o sobrenome de um
ancestral dinamarquês, desembarcado em Portugal por acaso. Prosseguiu seus
estudos de filologia clássica na Faculdade de Letras de
Lisboa.Inicialmente foi encorajada por Miguel Torga, mas tornou-se uma
referência tanto nacional quamto internacional.
![]() NO PONTO ONDE O SILÊNCIO
No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio, Esperei como quem espera em vão, Tão nítido e preciso era o vazio. ![]() MUSA Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos Quieta muda secreta Passiva como os espelhos Musa ensina-me o canto Imanente e latente Eu quero ouvir devagar O teu subito falar Que me foge de repente ![]() MANUEL BANDEIRA Este poeta está
Do outro lado do mar Mas reconheço a sua voz há muitos anos E digo ao silencio os seus versos devagar Relembrando O antigo jovem tempo tempo quando Pelos sombrios corredores da casa antiga Nas solenes penumbras do silencio Eu recitava «As três mulheres do sabonete Araxá» E minha avó se espantava Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó Quando em manhãs intactas e perdidas No quarto já então pleno de futura Saudade Eu lia A canção do «Trem de ferro» e o «Poema do beco» Tempo antigo, lembrança demorada Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira Quando Me sentava nos bancos pintados de fresco E no Junho inquieto e transparente As três mulheres do sabonete Araxá Me acompanhavam Tão visiveis Que um eléctrico amarelo as decepava. Estes poemas caminharam comigo e com a brisa Nos passeados campos de minha juventude Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro E foram parte do tempo respirado. ![]() JARDIM PERDIDO Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe, Em ti se dissolveu o mundo enorme, Carregado de amor e solidão. A verdura das arvores ardia, O vermelho das rosas transbordava Alucinado cada ser subia Num tumulto em que tudo germinava. A luz trazia em si a agitação De paraisos, deuses e de infernos, E os instantes em ti eram eternos De possibilidades e suspensão. Mas cada gesto em ti se quebrou, denso Dum gesto mais profundo em si contido, Pois trazias em ti sempre suspenso Outro jardim possivel e perdido. ![]() ROSTO
Rosto nu na luz directa.
Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta. Boca entreaberta como se bebesse, Cabeça atenta. Rosto desfeito, Rosto sem recusa onde nada se defende, Rosto que se dá na duvida do pedido, Rosto que as vozes atravessam. Rosto derivando lentamente, Pressentindo que os laranjais segredam, Rosto abandonado e transparente Que as negras noites de amor em si recebem Longos raios de frio correm sobre o mar Em silêncio ergueram-se as paisagens E eu toco a solidão como uma pedra. ![]() ROSTO PERDIDO Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam. ![]() PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte Para ver a verdade para perder o medo Ao lado dos teus passos caminhei Por ti deixei meu reino meu segredo Minha rápida noite meu silêncio Minha pérola redonda e seu oriente Meu espelho minha vida minha imagem E abandonei os jardins do paraíso Cá fora à luz sem véu do dia duro Sem os espelhos vi que estava nua E ao descampado se chamava tempo Por isso com teus gestos me vestiste E aprendi a viver em pleno vento ”O Livro Sexto”, (1962)
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