Os teólogos medievos faziam refletir sua
concepção da Trindade Divina
até mesmo sobre a organização da sociedade.
No final do século IX, Haymond de Auxerre, formulou esta ordem
tripartite
dividindo rigidamente a cristandade em três classes: aqueles
que
combatiam, os que oravam, e aqueles cuja função era o
trabalho.
Cerca de um século depois, esta fórmula
foi retomada, praticamente nos
mesmos termos, por Gérard, bispo de Cambray, que escreveu:
"A casa de Deus é portanto tripla, ela que parece unida: aqui em
baixo
uns rezam (orant) outros combatem (pugnant) e outros trabalham (laborant);
esses três formam um conjunto e não se separam; assim, a obra
de dois
repousa no ofício de um só; cada um por sua vez trás consolo
a todos"
Sob este ponto de vista, a
divisão
da sociedade humana concebida como
um reflexo, ainda que pálido, da própria divindade,
automaticamente
seria sagrada...
O significado
mais imediato deste esquema, que comporta uma sociedade una,
porém, dividida em três ordens, é que todos,
através
da ordem à qual pertencem,
têm seu lugar no plano divino, ao mesmo tempo em que
devem permanecer
em seus devidos lugares...
O esquema
das "três funções" já estava
bastante arraigado, quando em
Janeiro de 1129, o Concílio de Troyes reconheceu a legitimidade
da Ordem
do Templo. Foi uma decisão polêmica, pois afinal uma "Ordem
Militar" reunia em si mesma as duas primeiras "funções",
a de orar e a de combater, em detrimento do esquema trifuncional
que as separava rigorosamente.
Foi por isso que alguns teólogos não hesitaram em qualificar
a novidade como"
monstruosa".
Visto sob
nossa óptica
atual, parece um bocado estranho que um bando
de prelados fosse capaz de concentrar tamanho poder em sua própria
casta.
Sua autoridade era tão grande, que os habilitava (?) a interferir
tanto na
organização de um estado soberano, quanto sobre a vida
cidadão comum. Entretanto, é preciso não esquecer
que quando o Império
Romano,
enfraquecido, finalmente cedeu aos sucessivos avanços dos
povos bárbaros,
além de vencido, acabou submergindo na inominável barbárie
dos vencedores.
Por isso,
a Igreja cristã emergente acabou assumindo as funções
do extinto
Império. Na verdade, pouco a pouco, a Igreja Católica
transformou-se no
próprio Império...
Esta transformação ocorreu de forma proposital e consciente,
e os bispos
da Igreja Católica passaram a responder pelos deveres da antiga
classe
senatorial romana, acrescidos de uma formidável ampliação
de poderes.
Esta intenção sempre esteve implícita por trás
da retórica e da liturgia do
papado medieval.
Formou-se assim um estado teocrático, onde até mesmo
o título de
"
Pontífice Máximo", assumido pelos papas, fora
tomado de empréstimo
aos antigos Imperadores.
Após
Justiniano, o mundo mediterrâneo já considerava
a si mesmo como
uma sociedade totalmente cristã, e tornou-se verdade que "ser
romano é
ser cristão e ser cristão é ser romano"...
Os pagãos desaparecem das classes superiores e, mesmo no
campo, o
não-cristão constatava que havia sido marginalizado
num Estado unificado.

Cruzados
expulsando Cátaros de Carcassone
Iluminura do século XIV da Oficina do Mestre Boucicaut.
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