Bernardo em Troyes


Jerusalém

Como a sua Ordem lutava com dificuldades e parecia "marcar passo", Hugues de Payens (ou “Payns”) julgou necessário empreender, na Europa, o que nós chamaríamos atualmente "uma viagem de Propaganda & Marketing”.

Finalmente, a 13 de Janeiro de 1128 deu-se o famoso concílio de Troyes. Ali se apresentou uma delegação de templários, protegidos por uma das mais poderosas personalidades da Idade Média, o abade cisterciense Bernardo de Clairvaux. Foi ele sozinho quem estabeleceu as regras que definiam claramente o caráter da nova Ordem, ao mesmo tempo religioso e militar.

Mais tarde, redigiu em sua intenção uma espécie de apologia, De laude novae militae (“Em louvor da nova ordem de cavalaria”), onde se pode colher preciosas informações acerca do ideal templário em seus primordios. Aliás, um trecho é o bastante para que se tenha uma idéia do teor do documento:
”Vivem uma existência frugal, sem mulheres, sem filhos, sem terem nada de seu, nem a própria vontade. Quando não estão em luta contra os infiéis, arranjam as armas e os arreios dos cavalos. São comandados com tanta austeridade que uma palavra insolente, um riso imoderado, a menor revolta não ficam sem uma rigorosa correção. Não lhes é permitida outra caça além da do leão. Tomam banho raras vezes, têm o rosto tisnado pelo sol, o olhar altivo e severo.”

A despeito da sanção prévia do Patriarca de Jerusalém, que ninguem pense ter sido a aprovação do concílio uma conclusão gratuita ou precipitada. Ao contrário, parece uma bem montada peça de estratégia, pensada e ponderada.
Antes disso, uma carta de encorajamento, que se julga ter sido escrita por Payns aos irmãos em Jerusalém (enquanto estava na Europa), sugere uma crise no estado de ânimo deles. Havia — e continuava a haver — dúvidas no espírito de alguns eminentes sacerdotes sobre da moralidade da guerra: alguns eram de opinião que a reprimenda de Cristo a Pedro, quando este decepou a orelha do servo do sumo sacerdote, significava que o uso da violência era incompatível com a vida de um religioso professo.

Um culto prelado lombardo, Anselmo, arcebispo de Canterbury, havia considerado o ato de tomar a Cruz e partir em “cruzada”, como imensamente inferior à vocação monástica.
“Para ele, a escolha importante era simplesmente entre a Jerusalém celestial (...), que seria encontrada na vida monástica, e a carnificina da Jerusalém terrena neste mundo, que, sob qualquer que fosse o nome, não passava de uma visão de destruição (...)“.

Todavia, Anselmo estava agora morto e a preeminência por ele conquistada, em virtude de sua santidade e sabedoria, tinha passado para Bernardo, abade de Clairvaux.
Para atrair o apoio de Bernardo, Hugo de Payns lhe escrevera, de Jerusalém, pedindo-lhe ajuda na obtenção da “confirmação apostólica” e na redação de uma Regra de Vida.
Payns enviou o pedido aos cuidados de dois cavaleiros, Godemar e André — é possível que este último fosse o tio de Bernardo, a quem ele dificilmente se recusaria a atender.
Embora prostrado pela febre, Bernardo obedeceu a uma convocação imperativa para participar do concílio da Igreja em Troyes e claramente dominou os debates.
Jean Michel, que registrou as atas do concílio, disse que o fez “por ordem do concílio e do venerável padre Bernardo, abade de Clairvaux, cujas palavras eram prodigamente elogiadas pelos prelados ali reunidos".

A única oposição — cujas razões são desconhecidas — veio de João, bispo de Orléans, descrito pelo cronista Ivo de Chartres como um “súcubo e sodomita” e conhecido pela alcunha de “Flora”.

Assim, findo o Concílio de Troyes e homologada a nova ordem, gregos e troianos (com excessão de "Flora", é claro) ficaram satisfeitos. São Bernardo, Payens, Inocêncio III, O Patriarca de Jerusalém, Balduíno I, etc. e etc.
"Deus lo volt!!!!", teria dito (se ainda fosse vivo) o papa Urbano II, o apologista da Primeira cruzada...